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18 Set 2020

Dor Lombar? Quem não a tem?!

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Dor Lombar? Quem não a tem?!

Ao longo dos anos de existência da Physioclem, e da minha prática clínica, um dos problemas mais comuns com que nos deparamos é a dor lombar ou, vulgarmente conhecida, lombalgia (termo usado para uma dor inespecífica na região lombar, podendo esta pode ser aguda, há menos de 6 semanas, ou persistente, há mais de 12 semanas). Não é por acaso que isto acontece. Por todo o mundo, estima-se que a lombalgia chegue aos 40% da totalidade de ocorrências em urgência hospitalar por dia. Apesar dos esforços feitos, nos últimos anos, para a combater, o número tem vindo a aumentar. Hoje, trazemos-lhe a melhor e mais atual evidência no tratamento da lombalgia, para que possa ter mais conhecimento sobre o problema e a melhor forma de o gerir.

O melhor é mesmo atuar antes de sentir dor, ou seja, investir na PREVENÇÃO! Estudos dizem-nos que devemos apostar no exercício, bem como na educação do utente. Também nos indicam onde não devemos gastar o nosso tempo e dinheiro, nos quais se incluem cintas lombares, sapatos/palmilhas e ergonomia no trabalho ou em casa. Além disso, levantar pesos não tem qualquer evidência que vá aumentar as probabilidades de vir a sofrer uma crise de dor lombar. Na tabela seguinte, encontra a informação essencial, sobre o referido anteriormente, separando crianças de adultos:

 

 

Apostei na prevenção, ainda  assim sofro de dor lombar. Qual o melhor tratamento? Quem devo procurar?

O Modelo Biopsicossocial, além da parte física, aborda fatores comportamentais, psicológicos e sociais, associados à probabilidade de vir a sofrer de incapacidade ou dor crónica. É o modelo recomendado internacionalmente para o tratamento da lombalgia. Cada vez mais, as linhas orientadoras apontam no sentido do auto-tratamento, em terapias físicas (fisioterapia) e psicológicas e algumas formas de medicina complementar, em que o fator comum é considerar o utente como uma parte ativa do tratamento, de forma a melhor a função. A fisioterapia é a melhor opção quando persistir mais de 12 semanas.

Está comprovado que quando sofremos de lombalgia aguda ou crónica devemos procurar, como primeira opção, as terapêuticas não farmacológicas, como o exercício, a massagem, a manipulação vertebral, a acupuntura, o Tai Chi ou o Yoga. A educação do utente é fundamental, para que este possa manter uma vida ativa, continuando as suas atividades, como o trabalho. Deve evitar ao máximo uma vida sedentária, prejudicial para a lombalgia e dor radicular, pois a intensidade da dor não corresponde à gravidade do problema (muito raramente se trata de um problema grave). Ao revés, a eletroterapia é ineficaz, não tendo qualquer evidência. Ainda nas terapêuticas não farmacológicas, tendo como base a vertente mais psicológica, a Terapia Cognitivo-Comportamental, o relaxamento progressivo e o mindfulness também demonstram ter um efeito positivo na dor lombar.

Apenas quando as terapias físicas e psicológicas falham, no tratamento e gestão da dor, deveremos recorrer à medicação e como último recurso, então, a cirurgia. Pela falta de evidência de eficácia, efeitos secundários e riscos que acarreta deve evitar-se. Por exemplo, na lombalgia provocada por hérnia discal, os resultados entre o tratamento cirúrgico e o tratamento conservador são semelhantes, sendo que no segundo o risco é praticamente irrelevante. Na tabela seguinte, pode verificar de forma mais detalhada, a evidência dos tratamentos mais aplicados, diferenciando a dor aguda da crónica:

 

 

Embora a evidência existente seja maioritariamente para a população adulta, os tratamentos com mais evidência podem ser adaptados à população infantil, com resultados semelhantes. Ainda de ressalvar que quando falamos em lombalgia, estamos a excluir problemas neurológicos, como o défice de força e/ou défice de sensibilidade.

Infelizmente, a nossa realidade atual faz-nos perceber que os métodos menos recomendados como a farmacologia e a cirurgia são os mais utilizados, e são também os mais dispendiosos quer para o utente, quer para o serviço de saúde. Também se verifica um abuso da radiologia, expondo os utentes a elevadas doses de radiação, quando a evidência apenas recomenda o seu uso em casos graves, como por exemplo, uma infeção ou tumor. Isto poderá dever-se ao curto tempo de consulta médica, à falta de conhecimento da melhor prática, medo de erro diagnóstico e consequente litígio e o desejo de manter uma boa relação com o utente.

Vários países, como os USA, o Reino Unido, a Dinamarca e o Canadá, estão a implementar estratégias para combater esta epidemia, e depois de falhanços e sucessos, percebe-se que a reformulação de um sistema de saúde, sem compensações e virado para o utente e a sua classe social, juntamente, com reformas de compensação no trabalho e estratégias de marketing são os caminhos mais eficazes para começar a mudar este paradigma. O que mostrou ter benefícios para o utente, empregador e sistema de saúde.

Na Physioclem, trabalhamos de acordo com a melhor evidência científica, para garantir o melhor cuidado dos nossos utentes. Por isso, se sentir dor lombar, estamos aqui para o ajudar.

 

João Raimundo

Fisioterapeuta e osteopata

 

BIBLIOGRAFIA

Nadine E. Foster, Johannes R. Anema, Dan Cherkin, Roger Chou, Steven P. Cohen, Douglas P. Gross, Paulo H. Ferreira, Julie M. Fritz, Bart W. Koes, Wilco Peul, Judith A. Turner, Chris G. Maher, on behalf of the Lancet Low Back Pain Series Working Group.

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