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13 jul 2026

Pés descalços, quedas e desenvolvimento motor: o que o verão nos mostra sobre o movimento das crianças

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Pés descalços, quedas e desenvolvimento motor: o que o verão nos mostra sobre o movimento das crianças

O verão é, muitas vezes, a estação em que as crianças se mexem mais. Correm na praia, saltam no jardim, brincam no parque, sobem, descem, caem, levantam-se e exploram o mundo com mais liberdade. E há uma coisa que também tende a acontecer mais nesta altura: andar de pés descalços.

Durante muito tempo, muitos pais associaram os pés descalços a falta de proteção, frio, risco de lesão ou ausência de apoio adequado. Mas, em ambientes seguros, andar descalço pode ser uma forma importante de estimular o corpo da criança. Os pés são uma fonte rica de informação sensorial: através deles, a criança sente o chão, adapta o apoio, ajusta o equilíbrio e aprende a posicionar melhor o corpo no espaço.

Isto não significa que as crianças devam andar sempre descalças, nem que o calçado não tenha importância. Significa, antes, que o desenvolvimento motor beneficia da variedade. Tal como a criança precisa de correr, saltar, trepar, rastejar e brincar, também beneficia de experimentar diferentes superfícies, texturas e formas de apoio, desde que o ambiente seja adequado e seguro.

 

Porque é que os pés são tão importantes no desenvolvimento?

Os pés não servem apenas para andar. São uma estrutura essencial para o equilíbrio, a marcha, a corrida, o salto, a coordenação e a adaptação do corpo ao ambiente. Quando a criança anda descalça sobre superfícies diferentes, como areia, relva, chão de madeira ou tapetes, recebe estímulos que ajudam o sistema nervoso a interpretar melhor a posição do corpo.

Esta informação, chamada propriocepção, permite que a criança ajuste automaticamente a força, a postura, a estabilidade e a forma como se move. Quando o pé sente melhor o chão, o corpo tem mais dados para organizar o movimento. Por isso, em contexto seguro, dar liberdade aos pés pode contribuir para experiências motoras mais ricas.

A evidência científica mostra que o calçado pode alterar a forma como as crianças caminham e correm. Uma revisão sistemática publicada no Journal of Foot and Ankle Research concluiu que os sapatos influenciam vários parâmetros da marcha infantil, incluindo o comprimento do passo, o movimento do tornozelo e do joelho, a atividade muscular e a forma como o pé contacta com o solo. Os autores sublinham também que o impacto a longo prazo destas alterações no crescimento e desenvolvimento ainda não é totalmente conhecido, o que reforça a importância de uma leitura cuidadosa e individualizada.

 

O que nos diz a investigação sobre crianças que crescem descalças?

Um estudo publicado na revista Frontiers in Pediatrics comparou crianças e adolescentes habituados a andar descalços com crianças e adolescentes que habitualmente usam calçado. O estudo incluiu participantes entre os 6 e os 18 anos e avaliou equilíbrio, salto em comprimento e velocidade de corrida. Os resultados sugeriram que as crianças habitualmente descalças, sobretudo entre os 6 e os 10 anos, apresentavam melhor desempenho em tarefas de equilíbrio e salto, enquanto as crianças habitualmente calçadas tiveram melhor desempenho em sprint.

Estes resultados não devem ser interpretados como uma regra absoluta. O estudo mostra uma associação entre hábitos de calçado e desempenho motor, mas não prova que andar descalço, por si só, seja responsável por todas as diferenças observadas. Ainda assim, reforça uma ideia importante: os hábitos motores da infância influenciam a forma como a criança desenvolve capacidades como equilíbrio, força, coordenação e confiança no movimento.

No contexto clínico, isto é especialmente relevante porque o desenvolvimento motor não acontece apenas em consultas ou atividades estruturadas. Acontece todos os dias, nas brincadeiras, nas rotinas, nas quedas, nos desafios do corpo e na forma como a criança explora o ambiente à sua volta.

 

As quedas fazem parte da infância. Mas quando devemos estar atentos?

Cair faz parte do crescimento. Uma criança que corre, salta, brinca e explora vai cair algumas vezes. A queda, quando acontece em contextos normais de brincadeira e sem consequências importantes, pode fazer parte da aprendizagem motora. A criança aprende a ajustar o corpo, a proteger-se, a reorganizar o movimento e a ganhar segurança.

Mas há situações que merecem atenção. Quando uma criança cai muito mais do que os pares, tropeça frequentemente, evita correr, parece descoordenada, tem dificuldade em saltar, cansa-se com facilidade, apoia mal os pés, manca, queixa-se de dor ou evita determinadas brincadeiras, pode fazer sentido avaliar com mais detalhe.

O verão, por trazer mais atividade e mais tempo de brincadeira, pode tornar estes sinais mais visíveis. Algumas crianças que durante o ano se mexem menos podem, nas férias, revelar dificuldades que antes passavam despercebidas: menor equilíbrio, menor resistência, dores nos pés ou pernas, insegurança em terrenos irregulares ou dificuldade em acompanhar outras crianças.

Nestes casos, o objetivo não é limitar a criança nem transformar cada queda num motivo de preocupação. O objetivo é perceber se o padrão observado faz parte do desenvolvimento esperado ou se existe algum fator que possa estar a interferir com o movimento, a confiança ou a participação da criança nas atividades próprias da idade.

 

E o calçado? Deve ser evitado?

Não. O calçado continua a ser importante. Protege os pés, permite caminhar em ambientes menos seguros, reduz o risco de ferimentos e pode ser necessário em muitas atividades. A questão não está em escolher entre “sempre calçado” ou “sempre descalço”. A questão está em encontrar equilíbrio.

Em casa, na praia, no jardim ou em espaços seguros, pode fazer sentido permitir momentos em que a criança ande descalça e explore diferentes superfícies. Na rua, em pisos quentes, cortantes, irregulares ou com risco de ferimento, o calçado é fundamental. Em crianças com dor, alterações estruturais, dificuldades de marcha ou necessidades específicas, a escolha do calçado deve ser individualizada.

A mensagem mais importante para os pais é esta: o pé da criança precisa de proteção quando o ambiente o exige, mas também precisa de estímulo, liberdade e variedade para se desenvolver. Um bom acompanhamento não passa por regras rígidas, mas por perceber a criança, o contexto, os sinais e as necessidades de cada fase.

 

O papel da fisioterapia pediátrica

A Fisioterapia Pediátrica intervém em bebés, crianças e jovens, utilizando estratégias adaptadas e individualizadas para otimizar capacidades motoras, funcionalidade, bem-estar e qualidade de vida. A Ordem dos Fisioterapeutas destaca que esta intervenção pode ocorrer em diferentes contextos e que a família tem um papel ativo no processo de acompanhamento da criança.

Na Physioclem, a Fisioterapia Pediátrica ajuda bebés, crianças e jovens a desenvolver o seu potencial físico e funcional, trabalhando áreas como força, equilíbrio, destreza, dor, alterações musculoesqueléticas, condições neurológicas e respiratórias. A intervenção não olha para a criança como um “adulto em miniatura”, mas como uma pessoa em desenvolvimento, com necessidades próprias e uma relação muito particular com o movimento e a brincadeira.

Numa avaliação pediátrica, o fisioterapeuta pode observar a marcha, os apoios dos pés, o equilíbrio, a coordenação, a mobilidade, a força, a postura, a forma como a criança corre, salta, se levanta do chão, sobe escadas ou responde a desafios motores simples. Esta avaliação permite perceber se há alterações que justificam acompanhamento, orientação à família ou apenas vigilância.

O fisioterapeuta também pode ajudar os pais a compreender melhor o que é esperado para a idade, que sinais devem ser valorizados, que brincadeiras podem estimular o desenvolvimento e quando é importante procurar uma avaliação mais específica.

 

Movimento, brincadeira e saúde

As recomendações internacionais reforçam a importância da atividade física e da redução do tempo sedentário em crianças e adolescentes. As orientações da Organização Mundial da Saúde sobre atividade física e comportamento sedentário incluem recomendações para crianças, adolescentes e adultos, sublinhando o papel do movimento na saúde ao longo da vida.

Na infância, o movimento não deve ser visto apenas como “exercício”. Para a criança, mexer-se é brincar, explorar, experimentar, falhar, repetir e aprender. É assim que desenvolve força, equilíbrio, coordenação, resistência, autonomia e confiança.

Por isso, no verão, pode ser importante olhar para a brincadeira com outros olhos. A criança que anda descalça na areia, que salta de uma pedra para outra, que corre atrás de uma bola ou que tenta equilibrar-se num tronco está a treinar muito mais do que parece. Está a desenvolver competências motoras, sensoriais e funcionais que fazem parte do seu crescimento.

 

Em jeito de conclusão

Pés descalços também ajudam a crescer, quando o contexto é seguro e adequado. Não porque sejam uma solução mágica, mas porque permitem à criança sentir melhor o chão, explorar o corpo, ajustar o equilíbrio e viver experiências motoras mais variadas.

O calçado tem o seu lugar, sobretudo para proteção e segurança. Mas a liberdade dos pés, em momentos certos, pode ser uma forma simples de estimular o desenvolvimento motor, a autonomia e a confiança da criança.

Mais importante do que seguir regras absolutas é observar. Como anda a criança? Como corre? Como salta? Cai muito? Evita brincar? Queixa-se de dores? Parece menos segura do que outras crianças da mesma idade?

Na dúvida, uma avaliação em Fisioterapia Pediátrica pode ajudar a perceber se está tudo dentro do esperado ou se existe algum aspeto que merece acompanhamento. Porque crescer também passa por mexer, sentir, explorar e aprender com o corpo.

 

 

Referências bibliográficas

Wegener C, Hunt AE, Vanwanseele B, Burns J, Smith RM. Effect of children’s shoes on gait: a systematic review and meta-analysis. Journal of Foot and Ankle Research. 2011;4:3. doi:10.1186/1757-1146-4-3.

Zech A, Venter R, de Villiers JE, Sehner S, Wegscheider K, Hollander K. Motor skills of children and adolescents are influenced by growing up barefoot or shod. Frontiers in Pediatrics. 2018;6:115. doi:10.3389/fped.2018.00115.

World Health Organization. WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour. Geneva: World Health Organization; 2020.

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