Após um episódio de dor, é frequente existir uma redução da atividade física e das rotinas habituais. Em muitos casos, esta adaptação inicial é adequada. No entanto, quando se prolonga no tempo, pode contribuir para a manutenção dos sintomas e para a diminuição da capacidade funcional.
Com o regresso a períodos de maior atividade, como acontece frequentemente nesta altura do ano, surge a intenção de retomar o exercício ou outras práticas físicas. É neste contexto que se observam dois padrões comuns: evitar o movimento por receio de agravamento ou retomar a atividade ao nível anterior, sem uma progressão adequada. Nenhuma destas abordagens tende a ser eficaz a médio prazo.
O impacto da inatividade
A redução prolongada da atividade física está associada a alterações relevantes no sistema musculoesquelético e no organismo em geral. Entre as mais frequentes encontram-se:
- diminuição da força muscular
- redução da capacidade funcional
- menor tolerância à carga
- aumento da sensibilidade à dor
Estas alterações podem fazer com que atividades previamente bem toleradas passem a desencadear desconforto ou limitação.
Dor e evitamento do movimento
Após um episódio de dor, é comum surgir receio em relação ao movimento. Este fenómeno, descrito na literatura como evitamento associado ao medo, pode influenciar a forma como a pessoa se relaciona com a atividade física.
A redução progressiva do movimento pode conduzir a um ciclo de descondicionamento, caracterizado por:
- menor atividade
- aumento da rigidez
- maior atenção aos sinais corporais
- manutenção ou agravamento da dor
Este padrão tem sido associado à persistência de sintomas em diferentes condições musculoesqueléticas.
O regresso abrupto à atividade
Quando a dor diminui, é frequente a tentativa de retomar o nível de atividade anterior. No entanto, após um período de menor exigência, a capacidade dos tecidos para tolerar carga encontra-se reduzida.
Um aumento brusco da intensidade ou do volume de atividade pode ultrapassar essa capacidade e levar ao reaparecimento dos sintomas.
Este cenário é frequentemente interpretado como uma recaída, embora corresponda, na maioria dos casos, a uma desadequação entre a carga aplicada e a capacidade atual do organismo.
O regresso progressivo ao movimento
A abordagem mais consistente passa por um regresso progressivo à atividade, ajustado à condição atual da pessoa.
Este processo implica:
- iniciar com níveis de carga adequados
- progredir de forma gradual
- integrar períodos de recuperação
- monitorizar a resposta ao esforço
O objetivo é restabelecer a tolerância à carga e melhorar a capacidade funcional de forma sustentada.
O papel do movimento na recuperação
O movimento, quando devidamente ajustado, desempenha um papel central na recuperação da dor musculoesquelética. Está associado a:
- melhoria da função
- aumento da capacidade dos tecidos
- modulação da dor
- redução do impacto do medo associado ao movimento
Este enquadramento está de acordo com os modelos atuais de dor, que integram fatores físicos e psicossociais na sua compreensão.
O papel da fisioterapia
A fisioterapia permite enquadrar o regresso à atividade de forma estruturada e individualizada. Através de uma avaliação adequada, é possível:
- identificar fatores que contribuíram para o aparecimento da dor
- definir níveis iniciais de carga
- orientar a progressão do exercício
- ajustar o plano de acordo com a resposta da pessoa
O objetivo é promover um regresso ao movimento com segurança, reduzindo o risco de agravamento e aumentando a autonomia.
Em jeito de conclusão
A forma como se retoma a atividade após um episódio de dor é determinante para a evolução do quadro.
A inatividade prolongada pode contribuir para a persistência dos sintomas, enquanto um regresso abrupto pode levar ao seu agravamento.
Uma abordagem progressiva, ajustada à capacidade individual, permite restabelecer a função e reduzir a probabilidade de recorrência, de forma consistente e sustentada.
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