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23 mar 2026

Dor muscular persistente: quando o problema não está na articulação

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Dor muscular persistente: quando o problema não está na articulação

A dor muscular persistente é uma das queixas mais frequentes na prática clínica, sobretudo ao nível do pescoço, ombros, região lombar ou mandíbula. Pode surgir de forma gradual, manter-se ao longo do tempo e, em muitos casos, não apresentar uma explicação clara em exames de imagem.

É comum associar este tipo de dor a alterações estruturais, articulações, discos ou ‘desgaste’. No entanto, tal como já abordado no artigo sobre dor no pescoço e nas costas, nem sempre é aí que se encontra a principal fonte do problema.

Em muitos casos, a dor pode estar relacionada com o próprio tecido muscular e com a forma como este responde à carga, ao movimento e ao contexto da pessoa. Uma das condições frequentemente associadas a este quadro é a dor miofascial.

 

O que é a dor miofascial?

A dor miofascial é uma condição musculoesquelética caracterizada por dor associada ao músculo e aos tecidos envolventes. Está frequentemente relacionada com a presença de zonas de maior sensibilidade dentro do músculo, descritas como pontos gatilho miofasciais.

Estas zonas podem provocar dor local e, em alguns casos, dor referida para outras regiões do corpo, o que pode dificultar a identificação da sua origem.

Importa, no entanto, referir que a dor miofascial não é um diagnóstico baseado num único critério e que existe alguma variabilidade na forma como é definida e identificada na literatura científica.

 

Como se manifesta?

A apresentação clínica pode variar, mas existem características frequentemente descritas:

  • dor muscular profunda ou difusa
  • sensação de tensão ou rigidez
  • desconforto localizado à palpação
  • limitação de movimento
  • dor que pode irradiar para outras áreas
  • agravamento com determinadas cargas ou no final do dia

Em alguns casos, a dor pode ser interpretada como articular, quando o principal contributo está no tecido muscular.

 

Porque pode surgir?

A dor miofascial raramente resulta de um único fator. Habitualmente, está associada a uma combinação de elementos, como:

  • sobrecarga repetida
  • aumento de exigência sem progressão adequada
  • posições mantidas durante longos períodos
  • alterações no padrão de movimento
  • níveis elevados de stress
  • sono insuficiente
  • redução da atividade física

Este enquadramento está de acordo com o modelo atual da dor, que a entende como uma experiência multifatorial, influenciada por fatores físicos, emocionais e contextuais.

 

Qual é o papel dos exames?

Na maioria das situações, os exames de imagem não são determinantes para identificar este tipo de dor.

A ausência de alterações relevantes em exames não invalida a presença de dor nem a sua importância clínica. Significa, apenas, que a origem pode não estar associada a alterações estruturais evidentes.

A avaliação clínica, centrada na história da pessoa, no comportamento da dor e na análise do movimento, assume aqui um papel fundamental.

 

Como se faz a avaliação?

A avaliação da dor miofascial baseia-se numa abordagem clínica integrada.

Pode incluir:

  • análise da história e evolução da dor
  • identificação de padrões de agravamento e alívio
  • palpação de zonas de maior sensibilidade
  • avaliação do movimento e da função
  • análise dos fatores de carga e recuperação

A evidência mostra que não existe ainda um critério universal para a identificação de pontos gatilho miofasciais, o que reforça a importância de uma avaliação global e individualizada.

 

O que pode ajudar?

A abordagem deve ser ajustada a cada caso, tendo como base os princípios atuais de intervenção em dor musculoesquelética.

De forma geral, pode incluir:

  • educação sobre a dor e o seu significado
  • exercício terapêutico e movimento progressivo
  • gestão da carga ao longo do dia
  • estratégias para melhorar o sono e reduzir fatores de stress
  • intervenção terapêutica complementar, quando indicada

O objetivo não é apenas reduzir a dor, mas melhorar a função e a capacidade do corpo para lidar com a carga.

 

Em jeito de conclusão

A dor muscular persistente é frequente e, muitas vezes, mal interpretada. Nem sempre está associada a lesão estrutural ou a alterações visíveis em exames. Em muitos casos, reflete a forma como o músculo e o sistema musculoesquelético estão a responder às exigências do dia a dia.

A dor miofascial enquadra-se neste contexto e deve ser avaliada com rigor, tendo em conta a pessoa como um todo. Uma abordagem adequada permite não só reduzir os sintomas, mas também melhorar a função e prevenir recorrências, de forma informada e sustentada.

 

 

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