Com o aproximar do final do ano letivo, começam a surgir sinais de maior cansaço acumulado nas crianças e adolescentes. Entre atividades escolares, desporto e rotinas exigentes, é também nesta fase que muitos pais se apercebem com mais frequência de queixas de dor.
Dores nas pernas ao final do dia, desconforto nas costas, queixas após o treino ou mesmo dificuldade em manter algumas atividades tornam-se mais evidentes no contexto familiar. Perante estas situações, a explicação mais comum surge quase automaticamente: "deve ser do crescimento".
No entanto, a dor em idade pediátrica é multifatorial e nem sempre pode ser atribuída a esse enquadramento. Em muitos casos, pode refletir a forma como o corpo está a lidar com a carga, com o movimento e com o próprio ritmo de desenvolvimento, no contexto da dor musculoesquelética.
As chamadas dores de crescimento
As dores de crescimento são habitualmente descritas como episódios de dor nos membros inferiores, com características relativamente consistentes:
- surgem ao final do dia ou durante a noite
- localizam-se sobretudo nas coxas, gémeos ou região posterior do joelho
- apresentam-se de forma bilateral
- não estão associadas a limitação funcional significativa
Apesar da designação, não existe evidência de que estas dores estejam diretamente relacionadas com o crescimento ósseo, sendo atualmente consideradas dores benignas de natureza multifatorial. São comuns em idade pediátrica e tendem a ser autolimitadas.
Outras causas frequentes de dor
Nem todas as queixas devem ser atribuídas a este quadro. A dor em crianças e adolescentes pode estar associada a diferentes fatores, nomeadamente:
- aumento da carga desportiva
- ausência de progressão adequada no treino
- períodos prolongados em posições mantidas
- redução da variabilidade de movimento
- níveis inadequados de recuperação
Tal como descrito noutros contextos de dor musculoesquelética, a interação entre carga, recuperação e capacidade individual assume um papel central na forma como a dor se manifesta.
A questão da postura e da mochila
A postura e o peso das mochilas são frequentemente apontados como causa de dor. Embora possam ter um contributo, raramente explicam, de forma isolada, o aparecimento dos sintomas.
A evidência atual sugere que a dor musculoesquelética resulta de uma interação entre múltiplos fatores, incluindo a capacidade do corpo para lidar com a carga. Assim, mais do que procurar uma postura ideal, é relevante promover:
- variabilidade de posições
- atividade física regular
- desenvolvimento de força e resistência
Quando é necessário avaliar?
Apesar de muitas situações serem benignas, existem sinais que justificam uma avaliação mais aprofundada:
- dor persistente ou progressiva
- dor unilateral e bem localizada
- limitação da atividade diária
- presença de inchaço ou sinais inflamatórios
- claudicação
- dor associada a febre ou mal-estar geral
- dor noturna frequente que interfere com o sono
Nestes casos, é importante excluir outras causas e enquadrar corretamente a situação clínica.
O papel da fisioterapia
A fisioterapia pode contribuir para a avaliação e acompanhamento da dor musculoesquelética em idade pediátrica. Permite:
- identificar fatores de sobrecarga
- avaliar padrões de movimento
- ajustar níveis de atividade
- orientar exercício adequado à idade e contexto
O objetivo é promover um desenvolvimento funcional adequado, mantendo a criança ativa e reduzindo o risco de recorrência de sintomas.
Em jeito de conclusão
A dor nas crianças é comum e, na maioria dos casos, benigna. No entanto, não deve ser automaticamente atribuída ao crescimento nem desvalorizada sem avaliação adequada.
Compreender o contexto, identificar fatores associados e intervir quando necessário permite uma abordagem mais ajustada e eficaz.
Uma criança ativa, com boa capacidade de movimento e adequada gestão da carga, tem maior probabilidade de crescer de forma saudável e com menor incidência de dor ao longo do desenvolvimento, de forma consistente e sustentada.
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