A dor crónica é uma realidade para muitos, mas frequentemente não indica que o corpo está "estragado". Em vez disso, pode ser um sinal de que o nosso sistema de alarme interno está mais sensibilizado.
Na nossa clínica, abordamos a dor de forma integrada, utilizando a Fisioterapia, Osteopatia e Psiconeuroimunologia (PNIc), reconhecendo que a dor persistente muitas vezes resulta da interação entre a nossa biologia e os hábitos de vida atuais.
O desajuste evolutivo
O corpo humano foi projetado para se mover, enfrentar períodos curtos de fome e sede, e suportar variações de temperatura. No entanto, hoje vivemos num ambiente de maior conforto, frequentemente caracterizado pelo sedentarismo e por uma alimentação rica em produtos ultraprocessados.
Esta realidade pode contribuir para uma condição conhecida como Inflamação de Baixo Grau (IBG), uma inflamação silenciosa que mantém o sistema imunitário em estado de alerta, podendo dificultar os processos naturais de recuperação.
Por que a dor persistir?
Para que a inflamação cesse, o organismo necessita de "sinais de paragem", conhecidos como Resoleómica. Quando o estilo de vida inclui stress crónico, falta de sono e uma dieta rica em gorduras inflamatórias (como o excesso de ómega-6, por exemplo), o corpo pode ter mais dificuldade em produzir esses sinais.
Assim, a dor pode deixar de ser apenas um sintoma e passar a integrar um quadro persistente.
Caminhos para a recuperação
A recuperação da dor crónica vai além do tratamento da área afetada. É importante abordar o corpo de forma integrada, considerando o metabolismo, o sistema nervoso e o contexto de vida da pessoa.
Um dos primeiros passos é o movimento. O sedentarismo é um fator associado à dor persistente, pelo que a prática regular de exercício pode ser uma estratégia relevante. Em alguns casos, a atividade em jejum pode ser considerada, desde que ajustada ao contexto individual.
Este tipo de estímulo pode contribuir para a regulação dos processos inflamatórios e para o bem-estar geral.
Além disso, a nutrição desempenha um papel fundamental.
Manter um equilíbrio adequado entre ómega-3 e ómega-6 é importante para a regulação da inflamação e para o suporte da saúde global. Uma alimentação rica em nutrientes pode contribuir para uma melhor resposta do organismo.
Por último, a hormese - que se refere à exposição a pequenos desafios - também pode ser considerada. Exposições controladas a estímulos como frio, calor ou outros desafios físicos podem contribuir para a adaptação do organismo, quando integradas de forma adequada.
Estas estratégias, quando consideradas em conjunto, podem contribuir para uma abordagem mais completa da dor e do estilo de vida.
Abordagem clínica
Na nossa clínica, oferecemos uma abordagem personalizada a cada utente, começando com uma avaliação criteriosa que orienta o tratamento.
Combinamos terapia manual para reorganizar os tecidos com a abordagem da aprendizagem profunda, ajudando na compreensão da biologia da dor.
Esta combinação de métodos permite que o cérebro deixe de interpretar a dor como uma ameaça constante, promovendo um caminho mais saudável e equilibrado para a recuperação.
Nota final
O conteúdo apresentado tem caráter informativo e não substitui uma avaliação individualizada por um profissional de saúde.
Uma abordagem adequada, baseada na compreensão do contexto e na integração de diferentes estratégias, pode contribuir para uma gestão mais eficaz da dor e para a promoção de um estilo de vida mais equilibrado.
Paula Almeida
Fisioterapeuta
Referências bibliográficas
Bosma-den Boer, M. M., van Wetten, M. L., & Pruimboom, L. (2012). Chronic inflammatory diseases are stimulated by current lifestyle: how diet, stress levels and medication prevent our body from recovering. Nutrition & Metabolism, 9(1), 32.
Cordain, L., Eaton, S. B., Sebastian, A., et al. (2005). Origins and evolution of the Western diet: health implications for the 21st century. The American Journal of Clinical Nutrition, 81(2), 341-354.
Nesse, R. M., & Williams, G. C. (1994). Why We Get Sick: The New Science of Darwinian Medicine. Times Books.
Ruiz-Núñez, B., Pruimboom, L., Dijck-Brouwer, D. J., & Muskiet, F. A. J. (2013). Lifestyle and nutritional imbalances associated with Western diseases: causes and consequences of chronic systemic low-grade inflammation in an evolutionary context. The Journal of Nutritional Biochemistry, 24(7), 1183-1201.
Serhan, C. N., & Levy, B. D. (2018). Resolvins in inflammation: emergence of the pro-resolving superfamily of mediators. The Journal of Clinical Investigation, 128(7), 2657-2669.
Serhan, C. N. (2014). Pro-resolving lipid mediators are leads for resolution physiology. Nature, 510(7503), 92-101.
Ji, R. R., Xu, Z. Z., Strichartz, G., & Serhan, C. N. (2011). Emerging roles of resolvins in the resolution of inflammation and pain. Trends in Neurosciences, 34(11), 599-609.
Pedersen, B. K. (2011). Muscles and their myokines. Journal of Experimental Biology, 214(2), 337-346.
Pruimboom, L. (2011). Physical inactivity is a disease synonymous for a non-permissive brain disorder. Medical Hypotheses, 77(5), 708-713.
Pruimboom, L., Raison, C. L., & Muskiet, F. A. J. (2015). Physical activity protects the human brain against metabolic stress induced by a postprandial and chronic inflammation. Behavioural Neurology, 2015.
Mattson, M. P. (2008). Hormesis defined. Ageing Research Reviews, 7(1), 1-7.
Pruimboom, L., & Muskiet, F. A. J. (2018). Intermittent living; the use of ancient challenges as a vaccine against the deleterious effects of modern life – A hypothesis. Medical Hypotheses, 120, 28-42.