A avaliação do movimento é frequentemente associada à presença de dor ou lesão. No entanto, a forma como nos movemos pode e deve ser analisada mesmo na ausência de sintomas.
O movimento resulta da interação entre múltiplos sistemas - musculoesquelético, neurológico e respiratório - e reflete a capacidade do corpo para responder às exigências do dia a dia e da atividade física.
Alterações neste sistema podem não ser imediatamente evidentes, mas podem influenciar a forma como a carga é distribuída, como o corpo se adapta ao esforço e como responde ao aumento de exigência.
Movimento: mais do que força e mobilidade
A qualidade do movimento não depende apenas da força ou da amplitude articular.
Envolve também:
- controlo motor
- coordenação
- variabilidade
- capacidade de adaptação
Um movimento eficiente é aquele que consegue responder a diferentes contextos sem sobrecarregar estruturas específicas.
Porque não esperar pela dor?
A dor é muitas vezes o primeiro sinal que leva à procura de ajuda. No entanto, quando surge, o processo pode já estar em curso há algum tempo.
Padrões de movimento menos eficientes, repetidos ao longo do tempo, podem contribuir para uma distribuição inadequada da carga, aumentando a probabilidade de aparecimento de sintomas.
Avaliar o movimento antes da dor permite identificar estes padrões e intervir de forma precoce.
O que significa avaliar o movimento?
A avaliação do movimento consiste na análise da forma como a pessoa executa determinadas tarefas, tendo em conta o seu contexto, objetivos e exigências.
Pode incluir:
- padrões de movimento no dia a dia
- execução de gestos desportivos
- controlo postural
- resposta à carga
Não se trata de procurar um modelo ideal, mas de compreender a capacidade individual e a forma como o corpo se adapta.
Variabilidade e adaptação
O corpo humano não se move sempre da mesma forma e isso é desejável.
A variabilidade do movimento permite distribuir a carga por diferentes estruturas e adaptar-se a diferentes situações. Uma menor variabilidade pode associar-se a padrões mais rígidos e repetitivos, com maior risco de sobrecarga.
Promover a capacidade de adaptação é, por isso, um dos objetivos da avaliação e intervenção.
O papel da fisioterapia
A fisioterapia pode desempenhar um papel importante na avaliação do movimento, mesmo em pessoas sem dor.
Através de uma abordagem individualizada, é possível:
- identificar padrões de movimento
- compreender a relação entre carga e capacidade
- orientar estratégias de melhoria
- integrar o movimento na prática diária ou desportiva
O objetivo não é apenas prevenir sintomas, mas melhorar a eficiência e a capacidade de resposta do corpo.
Em jeito de conclusão
A avaliação do movimento não deve ser reservada apenas a situações de dor.
Compreender como o corpo se move permite antecipar adaptações, ajustar a carga e melhorar a forma como se responde às exigências do dia a dia e do exercício.
Intervir precocemente não significa antecipar problemas, mas promover uma prática mais eficiente, segura e consistente ao longo do tempo, de forma sustentada.
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