Porque este tema importa
Dor no maxilar, estalidos ao abrir a boca, dificuldade em mastigar, dor facial, tensão no pescoço e dores de cabeça (incluindo enxaqueca) são queixas comuns e, muitas vezes, interligadas. Em muitos casos, a origem pode estar relacionada com a articulação temporomandibular (ATM) e com o conjunto de condições conhecidas como disfunções temporomandibulares (DTM).
A boa notícia: quando bem avaliadas, estas queixas tendem a ser compreendidas e cuidadas com estratégias seguras e baseadas na evidência.
O que é a ATM (e porque pode doer)
A ATM é a articulação que liga a mandíbula ao crânio e participa em funções essenciais: falar, mastigar, bocejar e engolir. É uma articulação complexa, com componentes ósseos, musculares e um disco articular. Por isso, alterações na função, sobrecarga ou sensibilização podem traduzir-se em sintomas variados.
A dor pode manifestar-se como:
- dor no maxilar (à frente do ouvido)
- dor ao mastigar, bocejar ou falar durante muito tempo
- sensação de cansaço facial
- estalidos (cliques) ou crepitação
- limitação da abertura da boca ou “bloqueios”
- dor referida para a cabeça, ouvido, face e pescoço
A classificação internacional reforça que a dor orofacial pode ter várias origens e deve ser enquadrada de forma rigorosa. International Classification of Orofacial Pain fornece esse enquadramento diagnóstico.
DTM: um “nome guarda-chuva” para diferentes situações
DTM não é um diagnóstico único. É um termo que agrupa diferentes condições, sobretudo:
- DTM de origem muscular (por exemplo, dor nos músculos mastigatórios)
- DTM de origem articular (por exemplo, alterações do disco ou inflamação)
Na prática clínica, um dos modelos mais utilizados para diagnóstico e investigação é o DC/TMD, que organiza critérios clínicos e integra também dimensões psicossociais relevantes.
Ranger ou apertar os dentes: bruxismo e sobrecarga
Muitas pessoas associam de imediato “ranger os dentes” a DTM. É verdade que o bruxismo (especialmente noturno) pode contribuir para sobrecarga muscular e articular, mas a relação não é “automática” nem igual em toda a gente.
A forma mais útil de olhar para isto é:
- bruxismo pode ser um fator contributivo, não necessariamente “a causa” primária
- stress, sono, hábitos e sensibilidade do sistema nervoso podem influenciar sintomas
- o foco clínico não é “culpar o dente”, mas compreender o padrão de sobrecarga e o contexto
A ligação entre ATM, pescoço e cefaleias
Dor cervical e tensão nos trapézios coexistem frequentemente com dor na ATM. Isto não é surpreendente: cabeça, mandíbula e coluna cervical funcionam como um sistema integrado.
Além disso, muitas pessoas com DTM referem dores de cabeça recorrentes. Para enquadrar cefaleias com rigor, existe uma classificação internacional específica - a International Classification of Headache Disorders (ICHD-3) - essencial para distinguir padrões e orientar a abordagem clínica.
Este ponto é importante porque nem toda a dor de cabeça é igual e a avaliação deve respeitar sinais clínicos e história individual.
“A dor é real” (mesmo quando o exame não mostra “nada de grave”)
A ciência contemporânea descreve a dor como uma experiência sensorial e emocional, associada ou semelhante à associada a lesão tecidular. Esta definição foi revisada pela International Association for the Study of Pain (IASP) em 2020.
Isto ajuda a compreender porque é que:
- a intensidade da dor pode variar muito entre pessoas
- stress e sono podem amplificar sintomas
- a imagem (RX/RM) nem sempre explica tudo
- o cuidado precisa de ser centrado na pessoa, com explicação clara e estratégias progressivas
Como a fisioterapia pode ajudar (abordagem baseada na evidência)
A fisioterapia nas DTM tende a assentar em pilares como:
- educação e literacia em dor (explicar com clareza, reduzir medo, ajustar expectativas)
- exercício terapêutico (mandíbula e cervical, progressivo e adaptado)
- estratégias de autorregulação (relaxamento mandibular, respiração, pausa de hábitos)
- técnicas manuais quando apropriado, como complemento e não como solução única
Uma revisão sistemática recente sugere que a terapia manual aplicada a estruturas craniomandibulares pode melhorar dor e abertura da boca em pessoas com DTM, embora a qualidade e a heterogeneidade dos estudos justifiquem uma leitura prudente e individualização.
Quando procurar avaliação com mais atenção
Sem alarmismo, vale a pena procurar avaliação quando existe:
- bloqueio persistente (“a boca não abre”)
- dor progressiva intensa, trauma recente, febre, inchaço marcado
- alteração neurológica (formigueiro/alterações de força na face)
- perda de peso inexplicada, dor noturna persistente sem padrão mecânico
- dor de cabeça com sinais neurológicos ou mudança súbita de padrão
Mensagem final
Dor no maxilar/ATM, estalidos, ranger dos dentes, dor facial e cefaleias podem estar relacionados, mas raramente se explicam por uma única causa. O cuidado mais eficaz é aquele que combina avaliação rigorosa, explicação clara e estratégias progressivas e individualizadas.
Na Physioclem, cuidamos de si, naturalmente: com proximidade, rigor e uma abordagem integrada para que possa voltar a comer, falar, dormir e viver com mais conforto e confiança.
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