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27 jan 2026

Dor no pescoço e nas costas: quando o exame assusta mais do que o corpo

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Dor no pescoço e nas costas: quando o exame assusta mais do que o corpo

Muitas pessoas convivem com dor no pescoço (cervicalgia) ou nas costas (lombalgia) e trazem consigo um exame que “assusta”: hérnia, protusão, desgaste, artrose, disco desidratado. Outras, pelo contrário, sentem dor intensa e persistente… apesar de exames considerados “normais”.

Esta aparente contradição é uma das maiores fontes de medo, confusão e sofrimento desnecessário. A boa notícia é que a ciência atual ajuda-nos a compreender melhor esta realidade e a cuidar de forma mais eficaz e segura.

 

O que os exames mostram (e o que não mostram)

Exames de imagem como radiografias, TAC ou ressonância magnética são ferramentas úteis para identificar alterações estruturais. No entanto, não são um retrato direto da dor.

Estudos mostram que alterações como protusões discais, hérnias ou sinais de degeneração são frequentes em pessoas sem dor, sobretudo com o avançar da idade. Da mesma forma, pessoas com dor significativa podem não apresentar alterações relevantes nos exames. Isto não significa que “a dor está na cabeça”, mas sim que a dor não depende apenas da estrutura.

 

Dor diferente de lesão: uma visão atual da ciência

A dor é atualmente definida como uma experiência sensorial e emocional, associada ou semelhante à associada a uma lesão tecidular. Isto significa que a dor resulta da interação entre múltiplos fatores, incluindo:

  • tecidos e estruturas
  • sistema nervoso
  • contexto emocional e psicológico
  • sono, stress e fadiga
  • experiências prévias e crenças sobre o corpo

Este enquadramento ajuda a compreender porque duas pessoas com exames semelhantes podem ter experiências de dor completamente diferentes.

 

Cervicalgia e lombalgia: condições multifatoriais

Tanto a dor cervical como a lombalgia são hoje reconhecidas como condições multifatoriais, especialmente quando persistem no tempo.

A evidência científica mostra associações frequentes com:

  • stress e sobrecarga emocional
  • perturbações do sono
  • medo do movimento
  • redução da atividade física
  • episódios recorrentes de dor

Por isso, uma avaliação rigorosa não deve focar-se apenas “no disco” ou “na vértebra”, mas sim na pessoa como um todo.

 

Movimento é seguro quando existe hérnia ou desgaste?

Na maioria dos casos, sim.

As diretrizes internacionais reforçam que o movimento, quando bem orientado, é uma das ferramentas mais eficazes no cuidado da dor cervical e lombar, mesmo na presença de alterações estruturais.

Evitar o movimento por medo pode, paradoxalmente, contribuir para:

  • maior rigidez
  • perda de confiança no corpo
  • perpetuação da dor

O objetivo não é “forçar”, mas reintroduzir movimento de forma progressiva, segura e adaptada.

 

Como a fisioterapia pode ajudar

A fisioterapia moderna na cervicalgia e lombalgia assenta em pilares bem sustentados pela ciência:

  • educação em dor (compreender o corpo reduz medo e melhora resultados)
  • exercício terapêutico adaptado e progressivo
  • promoção de atividade física segura
  • estratégias para lidar com stress e sono, quando relevantes
  • técnicas manuais, como complemento e não como única solução

Não existe uma receita única. O cuidado eficaz é aquele que respeita o contexto, os objetivos e o ritmo de cada pessoa.

 

Quando é importante investigar com mais atenção

Sem alarmismo, há situações que justificam avaliação médica urgente ou diferenciada, como:

  • dor intensa após trauma
  • perda de força progressiva
  • alterações de sensibilidade extensas
  • dor noturna constante e não mecânica
  • perda de peso inexplicada ou febre associada

Fora estes contextos, a maioria das cervicalgias e lombalgias beneficia de uma abordagem conservadora, informada e progressiva.

 

Mensagem final

Ter uma hérnia, desgaste ou alterações no exame não define o seu futuro nem a sua capacidade de recuperar.
A dor no pescoço e nas costas raramente se explica por uma única causa e o cuidado mais eficaz é aquele que combina avaliação rigorosa, explicação clara e intervenção baseada na evidência.

Na Physioclem, cuidamos do movimento e da dor com ciência, proximidade e respeito pela individualidade de cada pessoa.

 

 

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